Divã Veterinário
Doenças

Entendendo as otites

Mayra Catharino386 views

Uma das principais causas de visitas ao consultório veterinário são as inflamações do ouvido, tecnicamente conhecidas como otites. Mas para uma boa anamnese, diagnóstico certeiro e tratamento eficiente é necessário a cooperação e o entendimento dos responsáveis pelos animais. E pensando nisso, resolvi fazer um texto tentando elucidar o máximo do assunto de maneira simples e clara.

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Primeiramente temos que entender que o ouvido dos cães e gatos são constituídos por 03 partes: ouvido externo, ouvido médio e ouvido interno.

O ouvido externo compreende desde o pavilhão auricular com os seus músculos extrínsecos e cartilagem (o que comumente chamamos de orelha) e o canal auricular externo (CAE). Tem a função de captar e transmitir estímulos sonoros até a cartilagem timpânica.

O ouvido médio tem a função de ampliar os sons recebidos.

Já o ouvido interno possui a função de gerar os impulsos auditivos para o cérebro e também é responsável pelo equilíbrio.

Dependendo da parte do ouvido acometida, o animal apresentará diferentes tipos de sintomatologias. Pode ser desde um simples prurido (coceira) e meneios de cabeça (“chacoalhar” a cabeça) até graves problemas neurológicos e motores.

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A otite na maioria dos casos são doenças multifatoriais, ou seja, possui vários elementos que influenciam e propiciam o desenvolvimento da inflamação. Eles fatores são divididos em predisponentes, primários e perpetuantes.

Os fatores predisponentes são os que aumentarão o risco do animal desenvolver a otite. Não serão os causadores e sim os facilitadores. Entre eles estão:

  • Alterações anatômicas e de conformação – Isso pode ser algo congênito (que nasceu com o animal) ou racial (algumas raças possuem naturalmente alterações como por exemplo Shar pei, Cocker Spaniel, Basset Hound entre outras).
  • Aumento da umidade – Banhos sem a devida proteção, animais que gostam de nadar e limpeza inadequada são alguns exemplos de ações que podem aumentar a umidade.
  • Fatores climáticos e sazonais – Tempos mais chuvosos, úmidos e quentes tendem a elevar a incidência das otites.
  • Tratamentos ou limpezas inapropriados
  • Situações de imunossupressão – A imunossupressão pode gerar alteração na flora normal do ouvido.

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Os fatores primários são as causas, o que leva o animal desenvolver a otite. Entre os fatores primários estão:

  • Parasitas – Sendo o principal deles os ácaros.
  • Corpo estranho – Areia, grama, insetos mortos são alguns exemplos.
  • Reações de hipersensibilidade – Doenças como a dermatite alérgica por picada de ectoparasitas (DAPE), alergias de contato e alergias alimentares podem resultar em uma sintomatologia que envolva o ouvido. Algumas vezes, um animal alérgico pode manifestar somente otite como sintoma.
  • Alterações de queratinização – Como por exemplo seborreias (vulgarmente conhecidas como “caspas”), adenite sebáceas, entre outros.
  • Endocrinopatias – Hipoitireodismo, Hiperadrenocorticismo e desequilíbrios dos hormônios sexuais são algumas patologias que podem ter como sintoma a otite.
  • Doenças autoimunes – São causas raras, mas mesmo assim podem vir a desenvolver a inflamação no ouvido.
  • Neoplasias auriculares – Independente de ser benignas ou malignas, pois as neoplasias tendem a obstruir o canal auricular e impedir os mecanismos de limpeza do ouvido.
  • Bactérias e fungos

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Já os fatores perpetuantes são aqueles que dificultarão o tratamento e irão piorar o quadro. Entre eles estão:

  • Alterações patológicas progressivas – Alterações no mecanismo auto-limpante do ouvido (redução da migração das células epiteliais), edema (aumento de volume), fibrose, estenose (diminuição do canal auricular externo) são alguns exemplos. São chamadas de alterações patológicas progressivas, pois acontecem em ouvidos que desenvolvem otites crônicas, que estão sofrendo constantes lesões.
  • Erros de tratamento – Limpar de maneira inadequada, resto de medicamentos, uso inadequado de produtos, dificultam a solução dos casos e prolongam o quadro.

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Acho que deu para reparar que otite não é um assunto fácil, né?! É difícil de diagnosticar e de tratar. Identificar todos os fatores envolvidos é um trabalho árduo e requer experiência. Por isso é de EXTREMA importância o tratamento com um PROFISSIONAL CAPACITADO – Leia-se médico veterinário!

Além disso, otites agudas podem virar crônicas e desencadearem em um quadro desastroso. O animal vir a desenvolver muita dor, surdez, sintomas neurológicos e ter que recorrer a uma intervenção cirúrgica. Então NADA de soluções caseiras e sugestões de casas agropecuárias. Vá até um médico veterinário formado!

Sei que o post ficou indecente de tão grande, mas espero ter ajudado os leitores que possuem pets com esse problema. Teremos mais posts falando sobre o assunto, essa foi uma introdução básica – Acreditem que o assunto é MUITO mais complexo que isso.

Um abraço especial para minha amiga Gabriella Gomes, quem me ajudou com o texto.

Um SUPER beijo e até a próxima!


Literatura utilizada:

  1. PATEL, A.; FORSYTHE, P. Otite externa e média em cão. In Dermatologia em pequenos animais. Série Clínica Veterinária na Prática. Rio de Janeiro: Saunders Elsevier. 2010. cap.57, p. 322-330
  2. MACHADO, V.M.M.C. Otite Externa Canina: Estudo Preliminar Sobre a Otalgia e Factores Associados. 2013. 65f. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. – download aqui.

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Mayra Catharino
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), apaixonada por fotos e bichos. Enxergou na internet a oportunidade de ajudar pessoas e pets, se encantando pela blogosfera, criando assim o Divã Veterinário. Para saber mais, clique aqui

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