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Doenças

Entendendo o TVT

Mayra Catharino821 views

Uma das doenças que mais me chama atenção no mundo da oncologia é o Tumor Venéreo Transmissível, comumente chamado por TVT, sua sigla.
Não, você não leu errado! É uma neoplasia e é contagiosa. E para piorar a situação é a segunda neoplasia mais frequente em cães.

Mas sem desespero! Hoje vamos aprender um pouco mais sobre essa doença, seus sintomas, os possíveis tratamentos que o médico veterinário pode sugerir e, a minha parte favorita, sua prevenção.

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Venéreo é a denominação dada para doenças adquiridas através do ato sexual.

Apesar de ser desconhecida por várias pessoas, o TVT é uma enfermidade antiga. Seu primeiro relato foi em 1820 pelo pesquisador russo Hüzzard, mas somente foi reconhecida em 1904, após a descrição do pesquisador Sticker. Ficou então conhecida como “Tumor de Sticker”.

Ao longo dos anos, inúmeros esforços foram destinados a entender qual tecido originava essa neoplasia. Esses esforços ainda continuam, pois nenhuma pesquisa chegou a uma conclusão. Com o passar do tempo e dos estudos, a doença recebeu vários nomes como linfoma venéreo, condiloma canino, sarcoma infeccioso e granuloma venéreo. Hoje a denominação mais aceita é Tumor Venéreo Transmissível (TVT).

Essa neoplasia acomete os cães domésticos e outros membros da família Canidae, como raposas, lobos, chacais e coiotes. Sua transmissão se dá através da transplantação de células tumorais de um animal à outro. Essa “transferência” de células pode ocorrer de diversas formas, sendo a mais comum através do coito (cruzamento).
Após se contaminar com a célula neoplásica, o animal desenvolve um ou vários tumores. Os mais frequentes locais acometidos são o pênis e o prepúcio de machos e a vagina e a vulva de fêmeas.
Outras regiões como cavidade nasal, laringe, pele e olhos podem ser acometidas. Isso é atribuído ao hábito dos cães de cheirarem e lamberem uns aos outros.

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TVT na base do pênis

A apresentação clínica varia conforme a região afetada. Os sintomas mais comuns são relacionados a área genital e são eles:

  • Secreção sanguinolenta vaginal ou peniana
  • Hematúria (presença de sangue na urina)
  • Tumefação genital
  • Lambedura excessiva do local
  • Odor fétido
  • Deformidade da genitália

A realização de exames complementares é importantíssima para diferenciar o TVT de outros tipos de tumores como o mastocitoma, histiocitoma, linfoma e também de lesões não neoplásicas.
O mais utilizado é a citologia que consiste na avaliação das células obtidas através de Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF) (traduzindo: Espetar uma agulhinha no tumor várias vezes e verificar as células coletadas) ou “Imprint” (quando se pressiona gentilmente a lâmina no local).

A avaliação microscópica é imprescindível, pois somente através dela pode-se ter um diagnóstico conclusivo e assim definir a conduta terapêutica adequada. Sem essa avaliação, o cão pode ser submetido a uma terapia desnecessária ou inadequada, não resolvendo o problema, podendo piorar o quadro ou gerar novas enfermidades.
A boa notícia é que a citologia é um exame barato e fácil de fazer.

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O TVT geralmente é uma neoplasia benigna, porém há relatos de metástases. A metástase é uma característica de tumores malignos e que consiste no acometimento de outros órgãos pelo tumor. Os pesquisadores relacionaram a chance de ocorrer metástase com várias características individuais do tumor, mas apontaram que a demora no tratamento favoreceu o ocorrido.

Há várias opções de tratamento, cada qual com sua limitação.

A retirada cirúrgica já não é muito utilizada, devido a grande quantidade de reincidivas do tumor. Porém é uma opção valiosa para os casos obstrutivos, onde há retenção urinária.

A quimioterapia é o tratamento mais utilizado, pois há uma ótima resposta associada à um baixo custo. A droga de eleição na maioria dos casos é a vincristina, um citostático, ou seja, uma substância que age inibindo a proliferação celular e estimulando a morte das mesmas (apoptose). Os efeitos colaterais desse tratamento acontecem devido sua ação não seletiva, isto é, age sobre outras células como por exemplo as células do sangue, da pele e do intestino. Esse fármaco tem ótimos resultados, fazendo com que o tumor regrida em poucas semanas de tratamento. Alguns pacientes nem chegam a demonstrar os efeitos colaterais nesse tempo.

Outras drogas podem ser utilizadas em caso de resistência à terapia com vincristina. – É sempre bom lembrar que somente o médico veterinário tem capacidade para diagnosticar seu animal e para realizar uma quimioterapia e outros tratamentos. Além disso, quimioterápicos podem ter efeitos drásticos em pessoas que manipulam as drogas sem proteção (capela de fluxo laminar, máscara com carvão ativo, aventais etc).

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A radioterapia é um método muito eficiente, porém é caro e difícil de encontrar. Mas é uma opção para aqueles casos onde a quimioterapia não foi suficiente.

Há relatos de terapias alternativas como imunoterapia, homeopatia e utilização de própolis auxiliando no tratamento de pacientes com TVT. Não isolados, mas como aliados nos tratamentos convencionais.

Existem casos onde o tumor involui, mas esperar que algo dessa natureza aconteça expõe o cão à uma maior possibilidade de metástase. Além disso, nada garante que o tumor não volte a evoluir.

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Como se trata de uma doença transmissível, podemos prevenir. Essa é uma doença com grande incidência em cidades que possuem numerosas populações de cães errantes… Falando no português claro: Cidades com muitos cachorros de rua tende a ter mais casos de TVT.

E é controlando essa população de cães de rua, através da castração, que controlamos a disseminação dessa doença. E de outras enfermidades também. – Nosso papel aqui é saber votar direito para o poder público de nossa cidade.

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Outra coisa que é muito válida é castrar seu próprio animal. Além de prevenir uma série de doenças como piometra, câncer de mama, câncer de próstata, entre outras muitas enfermidades, você garante que seu cãozinho ou sua cadelinha não fuja de casa, guiados pelos hormônios, e acabe com um doença como o TVT.

E por hoje é só!
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Um SUPER beijo e até a próxima!


Literatura utilizada:

  1. SÁ, A. C.  et al. Aspectos clínicos do tumor venéreo transmissível. Scientific electronic archives, Sinop, v. 9, n. 3, p. 1360-146, jul. 2016. Disponível em: <http://www.seasinop.com.br/revista/index.php?journal=sea&page=article&op=view&path%5b%5d=276&path%5b%5d=pdf>. Acesso em: 01 nov. 2016.
  2. SOUSA, J. et al. Características e incidência do tumor venéreo transmissível (TVT) em cães e eficiência da quimioterapia e outros tratamentos. Archives of veterinary science, Curitiba, v. 5, n.11, p. 41-48, 2000. Disponível em: <http://revistas.ufpr.br/veterinary/article/viewarticle/3884>. Acesso em: 01 nov. 2016.
  3. COSTA, M. T. O tumor venéreo transmissível canino. Revista de educação continuada em medicina veterinária, CRMV-SP, São paulo, v. 2, n. 3, p. 046-052, 1999. Disponível em: <http://revistas.bvs-vet.org.br/recmvz/article/download/3360/2564>. Acesso em: 01 nov. 2016.

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Mayra Catharino
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), apaixonada por fotos e bichos. Enxergou na internet a oportunidade de ajudar pessoas e pets, se encantando pela blogosfera, criando assim o Divã Veterinário. Para saber mais, clique aqui

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