Divã Veterinário
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Não é coisa de cachorro velho!

Mayra Catharino479 views

Não sei se esse texto é resultado da preocupação de uma médica veterinária ou da revolta de um coração de tutora. Talvez seja um pouco dos dois. Para ser sincera, é muito dos dois!

Eu não sei como ensinam em outras faculdades, mas meus queridos professores de clínica sempre foram muito claros em relação às neoplasias: Você não saberá o que é até ter o resultado de uma citologia (análise das células) ou uma histologia (análise do tecido) em suas mãos… Isso se você não precisar de um exame mais complexo.
Eles agem dessa forma porque, no mundo da oncologia, a clínica pode iludir e suas previsões podem ser erradas. Não existe regra quando falamos de tumores. Tudo é muito individual e a cada momento descobrimos mais e mais particularidades. E o principal: Você não troca a certeza pela dúvida, você não brinca com a vida do paciente, você não faz do diagnóstico um jogo de azar.

Sei que muitos colegas atendem pessoas carentes, que o dinheiro de um simples exame pode influenciar na hora de levar comida para a mesa. Sei disso, em Viçosa conhecemos essa realidade de perto. Mas, por favor, não deixem as pessoas no escuro! Diga qual o procedimento certo, mostre o valor… Tudo bem, alguns não vão poder pagar – e não porque não querem! -, mas há aqueles que não medem esforços, que fazem vaquinhas, economizam de tudo quanto é jeito.

Lá em Viçosa, existia uma senhora que tomava banho com sabão que lavava a roupa para poder economizar e levar o cachorro ao médico veterinário… Essa era uma escolha dela e é nosso dever dar as opções, mesmo que julguemos que alguns procedimentos e tratamentos são “inalcançáveis”. Pode parecer cruel mostrar algo que a pessoa não possa pagar, mas mais cruel ainda é tirar o direito de escolha de uma pessoa perante a vida de seu amado animal.

Nós estudamos para conhecer o caminho ideal e outros caminhos que podemos seguir, mas qual vamos trilhar não depende de nós. A Ética nos diz quais opções temos, mas ela também diz que a escolha não é nossa. É duro, pois achamos que sabemos o que é o melhor para o animal, mas o que devemos compreender é que não sabemos o que é melhor para aquela família a qual o nosso paciente faz parte.

E meu último pedido: Não digam que “é coisa de cachorro velho”, como se não merecesse atenção, como se não merecesse um diagnóstico decente. Doença periodontal é coisa de “cão velho”, mas nem por isso deixamos de diagnosticar e tratar. Artrose é coisa de “bicho velho”, mas nem por isso deixamos de lado. Não é a idade avançada que diz o valor do diagnóstico. Não é o quanto viveu nosso paciente que aponta o merecimento de um tratamento digno.

E lembrem-se: Todos os animais envelhecem, inclusive o ser humano… Como você quer ser tratado na velhice?

 

Desculpem o desabafo.
Um super beijo e até a próxima!

Mayra Catharino
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), apaixonada por fotos e bichos. Enxergou na internet a oportunidade de ajudar pessoas e pets, se encantando pela blogosfera, criando assim o Divã Veterinário. Para saber mais, clique aqui

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