Divã Veterinário
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Palestra: O Ensino Atual da Anatomia

Mayra Catharino3 comments576 views

No dia 08 de abril de 2014, no anfiteatro do Departamento de Veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV), aconteceram duas palestras abertas sobre técnicas de conservação de peças, dando enfoque na parte de plastinação. Infelizmente muitos estudantes não sabiam desse evento. Acabei sabendo graças à alguns alunos que acharam o aviso no site da Universidade e compartilharam pelo Facebook. (Obrigada Camvet!).

conservação de cadáveres 1

Como muitos dos meus amigos não puderam ir devido as aulas ou estágios que estavam ocorrendo no mesmo horário, peço licença para abordar um pouco (na verdade muito!) da palestra aqui no blog. Sei que foge um pouco do foco do Divã Veterinário, porém imploro a compreensão, pois isso interessa muito aos profissionais, não somente de medicina veterinária, mas das áreas das biológicas e da saúde.

Quem ministrou as palestras foi a Professora Telma Sumie Masuko, biomédica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora pela Universidade de São Paulo (USP). Hoje atua como professora adjunto na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e como presidente da Sociedade Brasileira de Anatomia (SBA). (Seu currículo conta com uma vasta formação, porém não irei falar tudo aqui. Para os curiosos, basta clicar no nome da professora acima, que abrirá o currículo dela).

A primeira palestra foi “O Ensino Atual da Anatomia: Perspectivas e Desafios”. Muitos pontos interessantíssimos foram abordados e fiquei super animada de compartilhar com os meus colegas.

A Professora Telma começou com um breve relato sobre a história da anatomia no Brasil, comentando desde a primeira lista de termos anatômicos traduzidos para o tupi e o português pelo Jesuíta Pero de Castilho, até as reformas no ensino da medicina, como a inclusão de aulas práticas e dissecação (Pasmem, antes de 1832 não havia aulas práticas, somente teóricas!)

pedro de castilho

Logo em seguida, foi levantado um ponto muito curioso sobre as mudanças das terminologias. Inúmeras pessoas reclamam das alterações constante de termos, porém essas adaptações são necessárias para adequar para o mais próximo do latim e retirar os erros de tradução que foram cometidos. Além disso, ressaltou a importância de retirar os epônimos do cotidiano, para que haja uma padronização e assim possibilitar que diversos profissionais com formações em lugares diferentes possam entender palestras, aulas e até mesmo conversas. Um termo pode até ter 30 epônimos, o que dificulta e muito. (Então quando o professor insiste para nós utilizarmos termos anatomicamente corretos nas aulas, não é chatice e sim uma preparação de um profissional melhor).

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Ela também abordou a dificuldade de se administrar as aulas devido ao extenso conteúdo. Para evidenciar isso, utilizou exemplos das aulas de anatomia humana. O sistema digestório humano possui 554 estruturas, sem contar a vascularização, inervação e aspectos clínicos. Na disciplina administrada por ela na UFBA são utilizadas 16 horas teóricas e 16 horas práticas para esse conteúdo. Fazendo uma conta básica, os alunos deveriam aprender e gravar 35 estruturas por hora. Já o sistema genital feminino com suas 291 estruturas dadas em 8 horas aumentaria esse número para 72. (E se pensarmos na medicina veterinária, também temos que incluir as variações entre as espécies. Eu sempre achei muito conteúdo para poucas horas e agora tenho certeza!)

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Para melhorar o ensino da anatomia é extremamente necessário a colaboração e a conversa entre os professores dos diferentes setores, para que cada um possa mostrar ao professor de anatomia o que é necessário evidenciar. Não estamos tirando a importância das outras estruturas, porém é importante salientar alguns pontos para os alunos, afim de facilitar sua formação acadêmica. (Infelizmente isso é muito difícil, devido ao desentendimentos entre os professores, mas a esperança é a última que morre, né?!)

Outra situação que foi chamada atenção é para os concursos de professores, em que na seleção, uma das etapas de maior peso é análise do currículo, independentemente se o profissional possui ou não experiência nessa área (não sei se deu para entender esse ponto. Um profissional pode ter maior conhecimento na área, porém sua classificação não seria tão boa quanto dos outros profissionais que tivessem muitas formações em outra área, sem ser a anatomia). Consequência disso, são inúmeros novos professores ministrando aulas sem ter um aprofundamento adequado em anatomia. (E isso vale para todas as disciplinas). Uma mudança está começando a acontecer com o reconhecimento do MEC em 2009 do mestrado profissional. O primeiro mestrado profissional em anatomia está em tramitação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestrado profissional é diferente do mestrado acadêmico (não sei ao certo dizer sobre as particularidades de cada um, mas se for de interesse posso procurar e fazer um post). Quem sabe assim o Brasil não começa a direcionar para o reconhecimento da profissão de pesquisador e aconteça uma separação entre professores e pesquisadores, que é algo que realmente atrapalha o ensino e a pesquisa, desvalorizando os profissionais e prejudicando a formação dos alunos.

montagem

Uma polêmica levantada na palestra foi que alguns profissionais são contra a utilização de cadáveres nas aulas de anatomia, sugerindo a substituição por modelos de resina e outros recursos como modelos virtuais. Para tal posicionamento, eles utilizam dos argumentos que usar cadáveres abala o psicológico dos alunos e provoca desistência de alguns. Na minha humilde opinião de graduanda, isso é um absurdo! É o primeiro contato que temos com animais, bisturis e outras coisas da profissão. Não sei vocês, mas poder fazer dissecação e mexer com diferentes tipos de animais foi o que realmente me deu estímulo para aguentar as matérias básicas, que são essenciais, mas vamos ser sinceros, são chatas demais. Além disso, é uma preparação para a patologia e suas necropsias, para as aulas de cirurgia e outras matérias, sendo algo que acontece de maneira gradual, permitindo nos acostumar a mexer com animais mortos para depois conseguirmos mexer com animais vivos. Eu não me sentiria nem um pouco preparada para as outras disciplinas se não tivesse a dissecação na anatomia. Na verdade ainda me sinto muito insegura, o que é normal, porém retirar os cadáveres é prejudicar o ensino e a preparação dos alunos. (Eu não sei a opinião de vocês sobre isso, então por favor, deixem nos comentários!)

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Para ajudar a refletir no assunto, faça a seguinte pergunta “se você pudesse escolher um médico para lhe atender, você optaria pelo que aprendeu em modelos de resina ou o profissional que fez dissecação em cadáveres?” (Foi uma pergunta da professora na palestra e eu achei extremamente pertinente)

Também foi comentado sobre a dificuldade na aquisição de cadáveres. Para ajudar na resolução de tal problema foi comentado sobre campanhas para conscientizar a população, acordos entre prefeituras e universidades e outras coisas. O mais interessante desse ponto foi o esclarecimento que o velório pode ocorrer normalmente e depois o corpo é encaminhado para a instituição (deve ter alguns requisitos, mas achei fantástico e já anuncio que mudei minha opinião sobre o que fazer com meu corpo após meu falecimento, que se Deus quiser demorará MUITOS anos. Quero ser doada para universidades e ajudar futuros médicos, claro que se puder doar antes alguns órgãos viáveis para transplante, também quero!)

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A questão do formol, acho que muitos alunos de diversos cursos estão cientes de seus pontos negativos (afinal não é somente a medicina e a medicina veterinária que lidam com peças. A enfermagem, a nutrição, a psicologia, a odontologia, a educação física, a agronomia e uma série de outros cursos necessitam mexer com cadáveres). Mas só para relembrar vocês daquele cheiro “gostoso” e ardido do formol, que nos provocam lágrimas durante a dissecação e que se torna inesquecível em nossas mentes, desejando passar longe da sala de anatomia pelo resto de nossas vidas. Além dessa memória “maravilhosa” em nossa graduação, devemos levar em consideração a sua toxicidade e mutagenicidade.

Além da toxicidade, o descarte de formol é extremamente caro, pois além de seguir uma série de requisitos para não prejudicar o Meio Ambiente, poucas empresas o fazem, aumentando assim seu custo, que é aproximadamente 5 reais por litro. (Agora pense nas câmaras enormes de conservação de peças das salas de anatomia e se choque com o gasto!)

dangers_of_formaldehyde

Foram abordadas formas alternativas de conservação de cadáver. Uma delas é a  mudança da solução fixadora, que permite conservar o cadáver a temperatura ambiente, não havendo a necessidade de mantê-lo imerso em solução conservante.  São soluções fixadoras que permitem uma maior facilidade na dissecação. A outra alternativa é a plastinação, que irei comentar no próximo post, se não esse ficará ABSURDAMENTE gigante (afinal, gigante já está!) e muito cansativo. Espero ter levado um pouco das informações da palestra para meus amigos que não puderam comparecer e irei detalhar no próximo post a plastinação, que é o que todos estão curiosos (calma gente, paciência comigo, please!). E peço desculpa para meus outros leitores, por fugir do foco do blog, mas foi com as melhores das intenções: Levar o conhecimento aos futuros profissionais. (Para dar um gostinho, a foto abaixo e a das renas lá em cima são cadáveres utilizando a técnica)

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Um abraço especial para a Professora Telma que ajudou na construção do texto e respondeu meus milhares de e-mails pacientemente.

Um super beijo e até a próxima!


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Mayra Catharino
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), apaixonada por fotos e bichos. Enxergou na internet a oportunidade de ajudar pessoas e pets, se encantando pela blogosfera, criando assim o Divã Veterinário. Para saber mais, clique aqui

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