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Doenças

Com a RAIVA, não se brinca!

Mayra Catharino1703 views

Muitas pessoas vacinam seus animais de uma forma “robotizada”, sem conhecer a doença e a importância de sua prevenção. Essa ausência de conhecimento abre espaço para a negligência, resultando em uma possível exposição da população. Isso é muito comum na Raiva, uma zoonose – ou seja, uma doença que afeta tanto seres humanos, quanto animais – que possui praticamente 100% de letalidade, que traduzindo seria afirmar que quase a totalidade dos indivíduos infectados (sejam humanos ou animais) acabam morrendo da doença.

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Essa enfermidade vem aterrorizando a Humanidade desde muito antes de Cristo. Inúmeros povos registraram os tormentos produzidos pela Raiva, entre eles estão os gregos, romanos e egípcios. Na antiguidade, muitos relatos se mesclam com crenças e lendas, pois não havia nenhum conhecimento acerca da transmissão, do agente e de outras características.

Felizmente os estudos progrediram e o conhecimento que hoje possuímos auxilia de maneira única o controle dessa enfermidade.

A Raiva é uma doença causada por um vírus e possui como hospedeiro todos os mamíferos, ou seja, isso inclui os cães, gatos, raposas, guaxinins, bois, cavalos, morcegos e assim por diante. O ciclo da doença é dividido em aéreo, silvestre, urbano e rural. – Porém esses ciclos se relacionam entre si!

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A divisão em ciclos facilita identificar os principais transmissores e reservatórios. No ciclo urbano – que pela lógica, deduzimos que se refere a Raiva nas cidades – os principais transmissores são os animais de estimação (cães e gatos). Por isso, o grande enfoque do controle nas cidades é a vacinação dessas espécies.

A vacinação é extremamente importante, pois protege os animais, que estatisticamente são mais expostos aos perigos, e também os humanos, que estão em contato direto com esses animais.

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Muitas pessoas não compreendem a real importância da vacinação antirrábica, pois felizmente o Brasil alcançou um certo grau de controle – ainda muito longe do ideal –, que tornou menos frequentes os casos e consequentemente, os sinais horrorosos e o final trágico da doença caiu no esquecimento.

O vírus da Raiva possui tropismo (afinidade) pelo Sistema Nervoso, resultando em diversos sinais. Tais sintomas podem ser agregados em fases clínicas da doença.  – A evolução da doença pode englobar todas as fases, mas isso não é uma regra. Vários fatores influenciam e cada animal expressará a doença de uma maneira.

Fase Prodrômica: O animal começa manifestar alguns sintomas inespecíficos como febre e se manter escondido. Parte do comportamento altera pelo início do mau-estar e também pela dilatação da pupila que ocasiona uma fotofobia – traduzindo ao pé da letra seria “medo de luz”, mas a fotofobia é um desconforto, e até mesmo dor, ocasionado por ambientes iluminados.

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Fase Furiosa: Nessa fase teremos uma hiperexcitabilidade, agressividade, salivação excessiva, aumento dos movimentos de mastigação e dificuldade de deglutição. A dificuldade de deglutição é vulgarmente chamada de hidrofobia, que não é o medo de água e sim a incapacidade de engolir até líquidos, mesmo se o animal estiver morrendo de sede. Os sinais da fase prodrômica podem estar presentes. Esse quadro clínico é clássico e foi o responsável pela origem do nome da doença. Essa apresentação é muito comum em cães.

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Fase Paralítica: Se a fase furiosa é chocante, a fase paralítica é de traumatizar quem assiste. Há o relaxamento dos esfíncteres e a paralisia de diversos músculos. É muito comum o animal morrer devido a paralisia do diafragma que impossibilita a respiração.

O vírus pode ser encontrado em todos os tecidos do animal, mas a maior concentração está no sistema nervoso e nas glândulas salivares. Essa grande replicação nas glândulas salivares é que caracteriza a principal forma de transmissão, que é por mordidas. Lambidas e arranhões também possuem um potencial infectante, porém em menor escala.

A transmissão via partículas dispersas no ar e por contato de secreções com mucosas também pode ocorrer, mas essas vias são mais importantes para profissionais que lidam com muitos animais e carcaças.– Para profissões de risco, como por exemplo médicos veterinários e zootecnistas, são realizadas vacinações, com o intuito de proteger tais indivíduos.

Como não há cura da doença e fatidicamente quase todos os indivíduos vão a óbito, os animais diagnosticados com Raiva são eutanasiados afim de promover uma morte tranquila e sem sofrimento. – Só há três relatos de cura e estas ocorreram em humanos, porém essas pessoas possuem sequelas neurológicas gravíssimas.

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A Raiva é uma doença assustadora e levou a Humanidade à extremos. Um bom exemplo disso foi em 1810 na França aonde surgiu uma lei que condenava à pena de morte qualquer pessoa que proibisse “estrangular, asfixiar, ou matar por qualquer outra maneira pessoas atacadas de raiva, hidrofobia ou qualquer outra enfermidade que provocasse convulsões ou loucura furiosa. Correspondia à polícia e à família das vítimas, tomarem precauções para proteger a saúde pública e a particular.”  – Horripilante, não?! 

A prevenção tem sido a melhor arma contra essa doença. Por isso é importante VACINAR ANUALMENTE seus animais de estimação. Caso você tenha sido mordido por um animal de rua, ou silvestre, ou que não tenha certeza que mantém a vacinação atualizada, PROCURE IMEDIATAMENTE ATENDIMENTO MÉDICO.

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Um SUPER beijo e até a próxima!


Literatura utilizada:

  1. Babboni, S. D. ; MODOLO, J.R. . RAIVA: ORIGEM, IMPORTÂNCIA E ASPECTOS HISTÓRICOS. UNOPAR Científica. Ciências Biológicas e da Saúde, v. 13, p. 349-356, 2011.
  2. Batista, H. B. C. R. ; FRANCO, A. C. ; ROEHE, P. M. . Raiva: uma breve revisão.. Acta Scientiae Veterinariae, v. 35, p. 125-144, 2007.
  3. Flores, E.F. . Virologia Veterinária. 1. ed. Santa Maria: Editora da UFSM, 2007. v. 1. 888p .

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Mayra Catharino
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), apaixonada por fotos e bichos. Enxergou na internet a oportunidade de ajudar pessoas e pets, se encantando pela blogosfera, criando assim o Divã Veterinário. Para saber mais, clique aqui

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